segunda-feira, maio 15, 2006

Só ele ...

Não faz isso, amigo
Já se sabe que você
só procura abrigo
mas não deixa ninguém ver
Por que será ?

sexta-feira, maio 12, 2006

Divã - Martha Medeiros

" ... Mas quem está no comando é ela, Lopes, a que não quer voltar para a cela. Rebelião no presídio feminino: ela fugiu do meu controle.
Ela é romântica como uma adolescente. Visceral. Caótica. Ela chora como uma menininha. Cria diálogos tão convincentes durante suas madrugadas insones que chega a acreditar que eles aconteceram. Viajadona. Doce. Áspera. Virginal. Ela me enlouquece. Ela determina a hora de voltar pra casa, e eu aguardo por ela cim uma ansiedade quase sexual. Quem está apaixonada, Lopes? Ela por ele? Eu por ela? Ou tudo não passa de um sentimento solto, sem dono, caçoando de todos nós neste consultório? "
Martha Medeiros, in Divã, pag. 71
"Não diz nada, você não diz nada. Apenas olha para mim, sorri. Quanto tempo dura? Faz pouco despencou uma estrela e fizemos, ao mesmo tempo e em silêncio, um pedido, dois pedidos. Pedi para saber tocá-lo. Você não me conta seus desejos. Sorri com os olhos, com a mesma boca que mais tarde, um dia, depois daqui, poderá me dizer: não. Há uma espécie de heroísmo então quando estendo o braço, alongo as mãos, abro os dedos e brota. Toco. Perto da minha a boca se entreabre lenta, úmida, cigarro, chiclete, conhaque, vermelha, os dentes se chocam, leve ruído, as línguas se misturam. Naufrago em tua boca, esqueço, mastigo tua saliva, afundo. Escuridão e umidade, calor rijo do teu corpo contra a minha coxa, calor rijo do meu corpo contra a tua coxa. Amanhã não sei, não sabemos."

La Vie En Rose


"Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente mas penso tanto em você que na hora de dormir vezenquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos."

Caio F.

terça-feira, maio 09, 2006

Desencontros ...

Sobrou desse nosso desencontro
Um conto de amor sem ponto final
Retrato sem cor jogado aos meus pés
E saudades fúteis, saudades frágeis
Meros papéis

- Chico -

Nalgum Lugar


nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente alémde qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado pertoteu mais ligeiro olhar facilmente me descerraembora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugarme abres sempre pétala por pétala como a primavera abre(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa
ou se quiseres me ver fechado, eu eminha vida nos fecharemos belamente, de repenteassim como o coração desta flor imaginaa neve cuidadosamente descendo em toda a parte;nada que eu possa perceber neste universo igualao poder de tua intensa fragilidade: cuja texturacompele-me com a cor de seus continentes,restituindo a morte e o sempre cada vez que respira(não sei dizer o que há em ti que fechae abre; só uma parte de mim compreende que avoz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

Zeca Baleiro

segunda-feira, maio 08, 2006


Tiete.

Sempre (Chico Buarque)

Sempre
Eu te contemplava sempre
Te mirei de mil mirantes
Mesmo em sonho estive atento
Para poder lembrar-te sempre
Como olhando o firmamento
E as estrelas cintilantes
Que se foram para sempre
No teu corpo em movimento
Os teus lábios em flagrante
O teu riso, o teu silêncio
Serão meus ainda e sempre
Dura a vida alguns instantes
Porém mais do que o bastante
Quando em cada instante é sempre

"vem que eu te quero fraco
vem que eu te quero tolo
vem que eu te quero todo meu"

Sem Fantasia - Chico Buarque

Terrível é o pensar.

Eu penso tanto

E me canso tanto com meu pensamento

Que às vezes penso em não pensar jamais.

Mas isto requer ser bem pensado

Pois se penso demais

Acabo despensando tudo que pensava antes

E se não penso

Fico pensando nisso o tempo todo.


Millor Fernandes

sexta-feira, maio 05, 2006

...

"... pois o deserto só é deserto para quem não sabe ver, e ele sabia." Carlos Drummond de Andrade - História de Dois Amores
Às vezes fico pensando em como te alcançar. Mas será que pra te alcançar não é preciso alcançar a mim mesma?

Dizer o que eu sinto é difícil. É doloroso ... e de uma inexatidão vasta e assustadora. Sentimentos que se misturam, confundem e atordoam. Mas que me deixam plena. Ora tudo tão claro, ora tudo tão obscuro. Por tantas vezes tão simples ... por outras quase indecifrável.

Guardar isso me deixa segura, só que paradoxalmente, me enfraquece. O meu castelo já ñ me parece tão impenetrável.

Essa incompreensão profunda, esse desejo de ser e ter, essa vontade de correr pros teus braços e me aninhar, brigam com a minha sensatez, a minha vontade de manter longe e de preservar o que noi fundo eu sei, já foi devastado e invadido.

Estruturas abaladas. Pernas bambas. Coração aos saltos... doce tortura. Querer ... querer ... querer.

A surpresa do sentir me desconcerta. As portas estavam fechadas.. e me deparo agora com a incontrolável vontade de abrí-las; mas diante da porta aberta, penso e questiono: vale o passo a frente? Esse passo a frente é o meu instigante desafio. E me assusto. O desconhecido me apavora.

Essa chuva, esse frio... aquela velha vontade de gritar, talvez um universo paralelo. Efêmero.

Fraca, forte, sempre cheia de dualidades. Dúvida. Você é a minha incerteza. Suspiro ... por mais uma vez tento organizar meus desconexos pensamentos.

O que importa agora? Eu sou feliz... você me faz feliz; isto me basta. E ñ é preciso entender porque. Entender o que se passa? Não. Já desisti. Só sentir. Não preciso de definições... eu só preciso libertar a mente e o coração inquietos.

Eu não quero sentir a dor ... não me entregar aos meus medos, me entregar aos meus medos significa me entregar a você. Isso é infundado. Eu só quero estar ao teu lado, sem cobranças ou expectativas. Sem pensar no dia de amanhã. Quero mãos dadas, pés entrelaçados e tardes infinitas. Eu quero a essência, o cheiro, o imperfeito. Eu quero o alcançável.

Me perco sempre entre meus pensamentos soltos. Palavras soltas. O mundo sem lógica. Minha falsa fortaleza ...

E quero me livrar das metáforas...



DMS - 20 de abril de 2006.

quinta-feira, maio 04, 2006

Ela não era indiferente. Por vezes soava indiferente, estática, mas dentro de si, havia um turbilhão de pensamentos. Daquelas pessoas que somente na presença de si, sem testemunhas, era ela.

Pensamentos que se atropelavam, se afogavam, ressurgiam. Pensamentos infudados, alguns lógicos, outros descompromissados. Só pensamentos.

E ela se escondia. Se escondia não por medo do outro, e sim, por medo dela; medo do desconhecido, medo da outra face, medo do outro lado. E se apavorava ... se encolhia e recolhia em pensamentos.

Tinha vontade de se mostrar ao mundo, e até tinha coragem; mas não tinha a força necessária. A força que possuia era toda consumida por estes desejos não ditos e escritos nunca revelados. Ela vestia o véu e seguia. Cheia de enigmas, não olhava pra fora.

Ela tinha medo do seu lado colorido, sua vida mexicana. E se ela se encontrasse no drama latino? Era demais se entregar ao clichê e aceitar que a vida de todo mundo é um grande folhetim batido.

Ela se agarra certo, não se deixa levar pelo acaso; não enfrentou riscos. Teme a loucura. Ela tinha medo de ser feliz pra sempre - sim, medo da assustadora felicidade eterna.

E não era indiferente ... só prudente.




DMS
"O telefone tocou, eu atendi, chamaram por mim. Em geral pergunto quem é porque nem sempre estou disposta a ser chateada. Mas dessa vez alguma coisa na voz, doce e tímida, me fez dizer que era eu mesma que estava ao telefone. Então a voz disse: "Quero que você seja feliz". Perguntei: "Quem é você?" Respondeu: "Alguém". Eu disse: "Mas eu quero saber quem você é para poder dizer o seu nome ao desejar que você seja feliz também." Mas foi inútil, ela não tinha sequer diante de mim a vontade de aparecer como pessoa que é. Era o anonimato completo." Clarice Lispector, in A descoberta do mundo

terça-feira, maio 02, 2006

...

Me destroe
Me abala
Me renega
Mas me conduz
E caio aos teus pés
E imploro teu abraço
Me abrigo
Me lambuzo
E plena, me satisfaço
E vai embora,
Cólera.
Mas volta,
E tudo se desfaz
em silêncio.


DMS - 02/05/2006